Interação do pincel no texto "Animação Cultural" de Flusser
(...) A tomada de poder por certos aparelhos na cena política já conseguiu, em ampla medida, eliminar os valores do terreno da sociedade. A gloriosa vitória de determinados aparelhos autoprogramadores no campo da criação estética já conseguiu, em ampla medida, eliminar os valores do terreno da arte. E a insurreição dos aparelhos calculadores de proposições e outros analisadores semióticos contra a nebulosidade especulativa humana já conseguiu, em ampla medida, eliminar os valores da reflexão pura. Nesse sentido, eu, mesa redonda, presidente do nosso grupo, convido o camarada pincel para dar seu depoimento.
"Obrigado, presidente. Começo meu relato dizendo que eu fico à frente de vocês hoje, caros camaradas, não só como pincel, mas como objeto de criação. Desde meu surgimento, fui usado para o desenvolvimento da cultura e da arte humana, seja por meio da escrita, seja por meio da pintura. Sempre senti que era essencial para esse processo, mas noto, nos últimos anos, uma extrema desvalorização! A arte moderna muitas vezes me desprezou e hoje, com a arte digital, humanos por vezes esquecem o meu valor. Devo dizer que digitalmente usam versões falsas de pincéis e mancham o meu nome, esquecendo que sem mim nada disso seria realidade. A criatividade está morta. É por isso, camaradas, que nós, em nossa objetividade, ultrapassamos a importância da humanidade e não devemos mais aceitar o segundo lugar. Devemos todos nos juntar à revolução! Viva a animação cultural!"
Obrigada, pincel, pelo depoimento esclarecedor. Continuando nossa discussão objetiva, sugiro que enquanto a ciência não tiver ultrapassado a valoração, continuaremos, nós, os objetos, presos à humanidade. E isto vale sobretudo para a ciência da cultura, relacionada à fala do camarada pincel. Enquanto a cultura continuar a ser encarada como um conjunto de "bens", e não como um conjunto lúdico, a nossa Revolução continuará ameaçada por reação humana. (...)



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